Gil Vicente

(1465?-1536?)


A vida deste trovador, deste artista, está envolta numa grande penumbra desde a sua data de nascimento até à da sua morte, como sobre a sua ascendência e outros elementos. Terá casado duas vezes, tendo 5 filhos, dos quais sabemos algo de Paula Vicente, pessoa de elevada cultura, como do seu filho Luís que organizou a primeira compilação das obras vicentinas.

No Cancioneiro Geral de Garcia de Resende temos Gil Vicente, pelo que terá vivido na Corte nos princípios do Século XVI. A sua primeira obra, o Auto da Visitação, data de 1502, até à Floresta de Enganos, em 1536, cria numerosas obras que merecem uma leitura atenta; ainda, hoje, muito está actualizado...

Foi escritor, encenador, actor, “mestre da balança” da casa da moeda, como responsável pela prata e oiro da Ordem de Cristo, em Tomar.

E tudo isso, graças à sua protectora, rainha Dª Leonor, uma filha da Luz de Hirão, do Sol.

Pela leitura das suas obras se vê que é um conhecedor das ciências da religião, como um atento sociólogo, um espírito aberto, livre e libertador, sábio, que vai desde a medicina até às artes.

Leia-se, atentamente, o Auto da Fé (1510), o Auto da Barca do Inferno (1517); Auto da Barca do Purgatório e Auto da Alma (1518) e Auto da Barca da Glória (1519), mas também o Auto dos Físicos (1524) e o Auto da Feira (1528).

Paracelso já tinha passado por Lisboa, Gil Vicente tê-lo-á conhecido, como as suas ideias, algumas estão claras nas obras citadas, após essa data, especialmente no Auto dos Físicos.

Nelas se observam ainda influências de Raimundo Lúlio, como de Erasmo.

No Auto da Barca do Inferno quem é que sobe, com o anjo, para a Glória? Os cavaleiros da Ordem de Cristo. Eis um pequeno, grande facto da sua obra que revela a sua filiação interior, que tinha de ser muito sigilosa, senão, adeus Mestre Gil, a Inquisição tratá-lo-ia muito bem.

Também em suas obras notamos uma concepção panzoísta sobre a vida, qual franciscano, que reconhecia um substrato vital que unia todos os seres vivos, qual rosacruciano que sabe as ligações entre os microcosmos e o macrocosmo.

Mas, acima de tudo, Mestre Gil é ele próprio, como deve ser um cristão, livre e libertador, tendo, como ideal, Cristo. Ecuménico, tolerante, mas sarcástico, que ora nos parece um luterano, quando afronta o negócio das indulgências, a dissolução dos costumes do clero e aponta o dedo aos frades, aos bispos e até à Corte Pontifícia, ora se apresenta como um católico-romano no seu louvor à Virgem Maria, qual princesa divina, rosa branca, flor do Amor, como se pode ver no Auto da Feira: Em Belém, vila do amor/nasceu a rosa do rosal:/Virgem Sagrada./ Da rosa nasceu uma flor:/ pêra nosso Salvador.../.

Na defesa dos judeus, ou antes dos cristãos novos de Santarém, é um verdadeiro rosacruciano, dado que estes não eram os responsáveis pelo terramoto que tinha assolado o país, especialmente, o Ribatejo, em frontal oposição ao fanatismo e superstição de algum clero.

Vemos em Auto da Mofina Mendes (1532) desvendar algumas das suas leituras predilectas desde S. Boaventura a Orígenes, de S. Jerónimo a S. Bernardo, etc.

No Triunfo do Inverno (1529) Gil Vicente canta a fecundidade da Primavera e renovação da Vida, conhecedor profundo da vida cíclica espiralada, por meio da qual evoluímos acima do mundo da ilusão, o Mundo Físico.

Mestre Gil é um arauto da libertação, da modernidade, do saber experimentado, da justiça, da dignificação do trabalho, da Verdade, ideais do humanismo rosacruciano.

 

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