Leão Tolstoi, uma pentalfa dourada, iluminando

o passado, o presente e o futuro

I

“A facilidade do ESPERANTO é tal que, tendo recebido recentemente uma gramática, um dicionário e artigos escritos nesse idioma, pude, após duas horas de estudo, se não escrever, pelo menos ler livremente nessa língua”.

Leão Tolstoi
(1828-1910)

 

Escolhemos este pensamento tolstoiano, entre muitos que se podiam inserir de valor muito mais profundo, apenas para realçar a capacidade deste génio (por vezes incompreendido, cujas capacidades criadoras e de trabalho são de elevado nível) para a aprendizagem de línguas e especialmente para este idioma universalista cujo valor real está em parte em sintonia com os seus ideais de fraternidade e união entre as culturas.

Nascido da nobreza russa, procurou ser um verdadeiro nobre na sua vida real e acima de tudo em seus profundos ideais de elevado humanismo cristão, de cosmocrata libertador, daí o valor do esperanto para ele, apesar de ser capaz de ler a Bíblia no hebreu; como Vítor Hugo, em francês; ou o poeta rosacruz Shakespeare, em inglês; ou o rosacruz alemão Goethe, nesse idioma; como a Divina Comédia do rosacruz Dante, em italiano, e assim por diante.

Ao analisarmos sua vida e obra, com facilidade se vê que Tolstoi foi um “Leão” no trabalho e nas lutas internas e externas; quantas frustrações terá tido desde desejar seguir a carreira diplomática, por sinal como também nós a desejámos neste país, então dominado por ideais escravizantes, só que tal como ele, não seguimos os métodos escolásticos e rotineiros que escravizam, como outros. Foi militar, agricultor, ceifou como um camponês russo, pleno de vigor e de coragem, desenhador, por fim sapateiro, homem das 7 artes e ofícios, por isso quantas experiências ao longo desta sua vida no Mundo Físico. Contudo, permitam-nos escolher 5 áreas, em nosso ver, as mais valiosas da sua multifacetada experiência: escritor versátil; reformador; democrata ou antes cosmocrata; humanista cristão; filósofo algo profético ou anarquista. Com elas podemos formar uma estrela dourada com cinco pontas, uma pentalfa que irradia raios luminosos sobre o passado, mantêm-se no presente e projectam-se no futuro da Humanidade e de um modo especial na nobre missão que os povos eslavos irão cumprir ao longo dos dois próximos milénios, juntamente com todos os outros, e entre eles os da sua amada Terra Natal, a Santa Rússia.

Só que Tolstoi apesar dos seus enormes desejos de seguir o caminho recto do aspirante a uma vida espiritual superior, teve sempre enormes dificuldades de vencer a sua poderosa natureza inferior que o prendia ao Mundo Físico e tanta dor lhe causava. Bem poderia dizer como Séneca: “Vejo o que é melhor e aprovo, mas...”.

Por isso, praticamente em todas as pontas da sua pentalfa dourada encontram-se os vis e duros metais saturninos, marcianos e outros, fonte de enorme sofrimento, cadinho de renovação rumo à Sabedoria que Tolstoi tanto ansiou, como o ar quando estamos asfixiados na água. Daí as suas enormes contradições internas como as suas críticas à obra de Shakespeare, quiçá, por ver-se em Hamlet, personagem muito conhecida e que no fundo reflecte o que afinal cada qual é na realidade, qual espelho onde nós nos podemos rever; por isso considerou as obras de Puchkin, outro notável escritor russo, como uma fonte de papel para embrulhar o tabaco; daí acabar por criticar as suas primeiras obras, os seus poderosos romances, afinal a parte do seu labor que mais o imortalizou.

Como escritor versátil legou-nos obras onde estão patentes as suas invulgares capacidades de observação, de psicólogo profundo, de sociólogo. Elas são fonte histórica para a compreensão dos séculos em que viveu e especialmente da sua amada Rússia, desde os ambientes históricos palacianos, aos duelos, às invasões napoleónicas, até à rica música dos zíngaros. Nessa área eis a sua obra épica, “Guerra e Paz” em que, além dos elementos históricos de grande valor, está a sua concepção sobre a evolução da Humanidade que, em grande parte são o nosso humilde ponto de vista, em que ela é fruto do seu Todo e não só dos chamados “heróis”, dos “salvadores”; na “Anna Karenina”, eis o retrato trágico de uma princesa russa do período enquadrado nos tempos da autocracia czarina unida ao poder clerical vigente, como ainda nos crentes onde dominavam a hipocrisia, a luxúria, as intrigas, as infidelidades. Outras análises surgem em suas obras como na novela “Ressurreição” ou nas “Historietas” e na “Sonata de Kreuzer”.

Estamos numa das pontas da Estrela dourada onde podemos ver mais luz...

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Como reformador, começamos a descobrir, mais claramente, a enorme luta interna, ele observa os males sociais, os problemas políticos, as questões religiosas, os problemas militares e não se limitou aos do seu país mas aos das democracias capitalistas ocidentais e assim por diante; fá-lo com alguma profundidade, mas com muitas contradições, espelho da luta entre a vida que levou e os seus idealismos do puro cristianismo como fonte de solução para todos os males e problemas.

Na sua concepção democrata ou cosmocrata, Tolstoi defende a liberdade de expressão e sofre na pele a censura dos poderes despóticos tanto dos czares como dos que os substituíram. Defendeu a criação de um imposto único que, no fundo, visava a distribuição das terras pelos camponeses, apesar de ele mesmo ser um aristocrata e viver como tal…embora cada vez mais aspirando a seguir os ideais de Cristo.

Chega mesmo a escrever num dos seus “Diários” que a missão do povo russo era de dar ao mundo uma reforma da propriedade privada em sintonia com o modo de vida dos primitivos cristãos que tudo tinham em comunhão de bens.

Por outro lado, no campo militar e em parte devido à sua experiência como combatente, Tolstoi é de novo algo anarquista, está contra os que estão no poder e defende que, por vezes, valem mais os soldados que alguns generais.

Na sua concepção da filosofia da não violência, Tolstoi condena todas as formas em que haja algo de imposição, pior ainda do uso da força brutal, aconselha que os cidadãos se devem recusar a serem recrutados, como todos os meios revolucionários que estavam despontando ou aumentando desde as greves até aos ideais marxistas. Para ele a base da renovação terá de ser o AMOR.

Por fim, ei-lo, quase como um S. Francisco de Assis, defendendo a vida dos animais, o dever de os amar; por isso, passa ao regime vegetariano.

Como humanista cristão, Tolstoi procura viver os ideais de Cristo, e de acordo com os seus pontos de vista escreve um novo texto bíblico; depois de valorizar o Antigo Testamento, coloca-o de lado e concentra-se nos Evangelhos, pois para ele o Apocalipse é tão só um texto de “mitos”. Para Tolstoi o mandamento: “não matarás” deve ser interpretado literalmente, numa visão profundamente pacífica, humanista. Hoje, em nosso ver, surge como orientação valiosa, perante actos de enorme vandalismo desumano, de terrorismos bárbaros e das tecnologias bélicas devastadoras.

Dado que os camponeses eram analfabetos, cria escolas, mas falha no sistema educativo e não só, como noutras áreas em que nos surge mais como anarquista, em que não vislumbramos como é que ele poderia substituir as instituições e os sistemas então vigentes, agora, remodelados num enorme polvo tecnocrata, por outras e outros.

Porque não terá seguido o checo João Amós Coménio, patrono da UNESCO, nos seus projectos reformadores e não só?

Contudo, na sua obra “Confissão” onde admite que, embora fosse baptizado e tivesse sido criado em ambiente de prática religiosa, pouco lhe diziam os dogmas teológicos (o que, hoje, sucede com muitos outros crentes) pelo que aos 16 anos deixa de ir à Igreja, leva uma vida de luxúria, de vandalismos, até que mais tarde de tudo se arrepende, seguindo, porém, a sua própria forma de religião, baseada nos evangelhos; noutra obra, “O Reino de Deus está Dentro de Si”, Tolstoi aponta o caminho da perfeição por meio do aperfeiçoamento individual norteado pelo Amor. Dessa forma o Mundo irá ser um verdadeiro Reino de Deus.

Temos aqui muito para reflectirmos, muito desta área está sendo analisada por eminentes teólogos cristãos, católicos, ortodoxos e protestantes.

Contudo os caminhos iniciáticos de humanismo cristão encerram explicações profundas sobre os mistérios da vida e da morte como apontam o caminho mais curto para a libertação. Neste campo, não conseguimos entender como é que Tolstoi, com a sua incomensurável capacidade de investigar, de observar, de aprender não se terá debruçado sobre os ensinamentos iniciáticos da Escola dos Trottes na Rússia, vindos da Idade Média é certo, mas profundos em humanismo cristão esotérico. Se os tivesse investigado como outros mais para o ocidente, Tolstoi veria no Apocalipse mais que “mitos” sem valor, mas um texto valioso, pleno de parábolas, de símbolos, que nos dão várias faces da Verdade desde o que somos, acerca do passado e sobre o futuro.

Acaba por concluir que devemos viver para Deus, não para nós, aqui reside o sentido da vida, cujas faces poderemos resumir nas suas últimas palavras: “VERDADE” e “AMO-VOS.”

Em resumo, poderemos dizer que Tolstoi bem representa os grandes conflitos em cada ser humano, no passado, no presente, no futuro ainda, embora suas utopias algo anarquistas apontem para a criação de uma civilização verdadeiramente rica em humanismo cristão, esteve sempre numa luta constante qual Centauro apontando a flecha aos Céus mas com as pernas muito presas à terra física.

Deixou-nos uma obra muito rica e diversificada, toda ela digna de ser editada e não só os seus romances, mas os seus Diários, as suas obras sobre filosofia desde a “Raiz do Mal» até às “Confissões» e “O reino de Deus está dentro de Si”.

Tolstoi com as suas longas barbas ora nos lembra o grego Platão; ora o universalista e humanista rosacruciano Leonardo da Vinci também este um incompreendido e uma personalidade difícil de analisar. Ou ambos não fossem grandes demais para os compreendermos nos nossos vis metais da natureza inferior e sob a nossa lente mais ou menos obscurecida.

Procuremos a Verdade, a Luz, como Tolstoi, cada um pensando por si, seguindo o seu caminho, aprendamos com os erros dos outros, seguindo o trajecto mais curto para a construção da Fraternidade Universal.

 

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