Conferência proferida nas

Comemorações

dos 400 Anos do Nascimento

de João Amós Coménio

Auditório Municipal do Bombarral - Portugal

em

25 de Abril de 1982


Desenho João Amós Coménio
Desenho concebido para estas comemorações por Miguel Ângelo Medeiros de Carvalho, então estudante do 1º ano da Faculdade de Belas-Artes, Lisboa, Portugal, onde entrou com 20 valores na Geometria.

As comemorações do 4º Centenário do nascimento de João Amós Coménio podem e devem ser fontes de reflexão para a construção de uma nova Era Mundial.

Se analisarmos sua vida e obra, numa perspectiva aberta, encontraremos Luz para a criação de novos arquétipos, novas mentalidades e estruturas, esses e essas, sim, capazes de construírem, efectivamente, uma Nova Ordem Mundial.

Muito embora a obra de Coménio seja multifacetada, todavia, podemos observá-la, essencialmente, através de um prisma de cinco faces principais: o pedagogo, o teólogo, o sociopolítico, o filósofo e o ecologista, enfim, uma pentalfa dourada.


Uma pentalfa dourada
Coménio, uma pentalfa dourada,
um Filho da Luz e do Amor.

Coménio, o pedagogo, é a face pela qual é, mundialmente, mais conhecido: é o precursor do ensino pré-escolar, com a obra “Escola do Regaço Materno”; precursor dos meios audiovisuais na educação, com o seu original, “Orbis Pictus”, o mundo em imagens; e ainda com a “Escola Maternal”, onde sugere o uso de um “Livrinho de Imagens” para as crianças; o precursor de uma verdadeira democratização no ensino com várias obras, mas, especialmente com a sua “Opera Didactica Omnia”, onde, no tomo I, “Didáctica Magna”; é precursor da orientação profissional; enfim, no seu conjunto, cria a ciência da educação.

Se analisarmos suas ideias e reformas pedagógicas e compararmo-las com o ensino actual veremos muitas divergências, quiçá causa do insucesso escolar, de toda uma insatisfação, mais ou menos generalizada, e de outros males que afectam a sociedade actual. Facilmente encontraremos profundas divergências entre os superiores objectivos da educação e também nos métodos.

Enquanto a pedagogia comeniana visa, entre outros fins: a libertação das capacidades interiores de cada educando, a formação do seu carácter e a glória divina; a actual, apesar das boas intenções tem como fins o “canudo”, a glória mundana, o desenvolvimento das capacidades de cada ser humano para fins mais ou menos egoístas. Na pedagogia comeniana há uma interligação entre cada educando e a natureza, esta é observada e estudada no respeito das suas leis e pela aplicação analógica da sabedoria que ela revela, como criação divina; nela, incentiva-se a cooperação fraterna. Na actual, fomenta-se a competição, a observação utilitária da Natureza.

Não nos vamos alongar mais neste campo, onde teremos a oportunidade de ouvirmos o Sr. Prof. José Joaquim Carinhas, que, com a sua experiência pedagógica, com a sua formação profissional e seu carácter, irá dar as suas reflexões e certamente nos vai colocar a reflectir sobre este campo de enorme valor.

Pela nossa parte, vamos incidir sobre as outras 4 faces.

A do filósofo rosacruciano que tudo observa numa visão de plena simbiose entre a análise e a síntese.

Para Coménio tudo está interligado. O espírito e a matéria têm íntimas ligações e influências recíprocas.

Perante a Natureza, o Cosmo, sua visão é algo idêntica à de S. Francisco de Assis: um panzoísta, que em toda a parte vê a vida animando e servindo-se de formas físicas, numa interligação com a Unidade da Vida Única.

Não está escrito que o corpo é o templo de Deus? Sim, o corpo físico e outros mais subtis, que não são instrumentos para o espírito interno, parte do Deus do Universo, servindo para sua evolução? Não está escrito, também, que, embora aquele não entre nos reinos superiores e em futuros estados, no entanto, não será ele ressuscitado ou quiçá, melhor dizendo, alquimicamente transformado num corpo-alma, imortal e incorruptível? Não quererá isto indicar a existência de outros planos ou mundos, menos densos do que aquele em que vivemos? A ciência, com o seu avanço tecnológico, não os está descobrindo?

Coménio teve a coragem e a clarividência de considerar a filosofia cartesiana, dualista, mecanicista e racionalista, como “de todas a mais perniciosa” onde os ateus e materialistas, com facilidade se refugiam.

Como se sabe, Descartes é o pai da filosofia moderna racionalista, que iria influenciar as ideias da revolução francesa e posteriormente ramificar-se em diversas correntes agnósticas, positivistas, materialistas e outras, falsamente espiritualistas, que têm dominado as ciências, no seu sentido lato, a política, a economia, a vida em geral.

Quando Coménio se encontrou com Descartes houve logo pontos de vista antagónicos, apesar de este também se ter interessado pelas ideias filosóficas da Escola Rosacruz. Coménio dava valor ao saber tradicional, à fé, aos ensinamentos bíblicos, embora sempre acompanhados pelo uso do raciocínio lógico e analógico, por meio dos quais extraía luz para os seus métodos pedagógicos e outros, para suas criações pansóficas.

Coménio defendia ainda o saber experimental, dando ênfase ao ensino prático.

Sua pansofia é o produto da união da filosofia com a teologia, da ciência e arte com a religião, objectivos dos ensinamentos da Escola Rosacruz de que foi destacado membro.

Descartes, por sua vez, na sua filosofia, punha de lado a fé, a religião, as reflexões teológicas, chegando mesmo a criticar Coménio no seu trabalho: “Oeuvres”.

Mas Cristo não será a Verdade, o Caminho e a Vida? Não será Ele o Único Salvador? Como nos poderemos orientar sem O ter como Norte? Como é que alguém poderá ser educador se O não tiver como Ideal?

Por outro lado, a filosofia comeniana baseia-se na doutrina humanista do quiliasmo. Para ele, face a todo o labirinto confuso em que a Humanidade vivia, só havia um caminho para sair: a Luz de Cristo.

A realidade, porém, é que os cientistas dos diversos ramos académicos e todos, mais ou menos, de uma forma generalizada, temos nadado nas ondas das filosofias dualistas e muitos nas materialistas e agnósticas e os resultados estão à vista, desde a nossa mentalidade, à instrução, às estruturas vigentes, ao meio ambiente, sem conseguirmos vencer essas ondas que dificultam a rota para um bom porto.

Nesta hora de crise ecológica e crise diversificada, a filosofia comeniana surge com renovado interesse.

Como disse, Jirí Benes, do Instituto de Filosofia da Academia Checoslovaca das Ciências, para Coménio o “homem não é dono ilimitado do mundo mas a sua parte integral e seu administrador, um seu sábio utente”.

Por sua vez, Max Heindel escreveu: “Este mundo em que vivemos está governado por leis da Natureza.... Não podemos modificá-las.... Se as conhecermos bem e cooperarmos inteligentemente com elas, as forças naturais converter-se-ão em nossas auxiliares, valiosas, como a electricidade, o vapor, etc. Se, pelo contrário, não as compreendermos e, em nossa ignorância, ou orgulho intelectual ou egoísmo, agirmos contra elas, tornar-se-ão perigosas inimigas, capazes de terríveis destruições”.

Não será urgente sabermos usar as forças e os meios naturais para fins superiores e de acordo com as suas Leis?

Para tal, não teremos de mudar as concepções socioeconómicas, políticas, e outras, mais ou menos, mundialmente reinantes?

Ouçamos Coménio nestes sectores.

Para a solução dos problemas sociais, desde a injustiça na distribuição da riqueza, até à fome, ao desemprego, ele recorda-nos a mensagem de Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo”. Não será esta a única verdadeira chave para resolver estes e outros problemas que nos afectam e afligem? Até agora temos utilizado remendos; mas, a hora cada vez mais exige total mudança de fato e vestirmo-nos com brancas roupagens.

Para a construção de uma nova sociedade que liberte a Humanidade do “labirinto da confusão” em que vivia (hoje, labirinto mais complexo que para alguns parece não ter porta para sair) Coménio vê uma sociedade onde todos cooperam desinteressadamente, onde os maiores são servidores modestos, em sintonia com as Utopias humanistas, como de Tomas Campanella e do rosacruz F. Bacon, de quem recebeu influências, tal como de um outro rosacruciano, seu amigo J. V. Andrea. Esse sonho surge em sua obra “Labirinto do Mundo e Paraíso do Coração”. No seu “Angelus Pacis”, “Anjo da Paz”, apresenta propostas concretas para a defesa da liberdade de todas as pessoas e povos e para isso lembrou que temos de saber transformar nossos defeitos em virtudes, aliás o caminho certo para a eficaz transformação da sociedade em que vivemos, para uma paz duradoira.


Um dos seus leais amigos, outro rosacruz, J.V. Andrea
Um dos seus leais amigos, outro rosacruz, J.V. Andrea.

É, porém, na sua grande obra, “De Rerum Humanarum Emendatione Consultatio Catholica, ad Genus Humanum”, que seus ideais cosmocratas surgem mais claros e profundamente inovadores.

Depois de defender uma Europa Unida, qual utopia em sua época, (hoje, quantos não a defendem e falam sobre ela) e graças aos descobrimentos portugueses que “deram novos mundos ao mundo”, Coménio lembra que a Europa tem por obrigação levar a esses povos apenas e só a parte positiva da sua civilização e jamais explorá-los. Coménio profetizava os erros de certas colonizações.

João Amós Coménio procurava a “Grande Unidade de toda a Humanidade” porque, segundo ele: “se somos todos cidadãos do mesmo Mundo, porque não um dia vivermos sob uma única sociedade com as mesmas leis e uma só religião universal”? Para isso o ser humano tem de erguer-se à categoria de um criador livre e original, tem de ser capaz de auto-realizar-se e de possuir o domínio de si mesmo. A educação pansófica era a base para tal meta. Isso o levaria a viver de acordo com as leis naturais, em harmonia com a Natureza e com todos os seus reinos, à tolerância entre as pessoas, à paz entre os povos.

Nessa obra Coménio reconhece a necessidade de um idioma universal que permita uma melhor comunicação e compreensão entre todos os irmãos e irmãs do mundo. No capítulo da Emenda Universal, “Panorthosia”, Coménio expõe uma nova filosofia, uma nova religião e uma nova política, numa concepção de vivência universalista sob instituições mundiais. Essas instituições eram o Tribunal Internacional da Paz para manter a justiça e a paz entre as pessoas e os povos. O Parlamento Mundial, a Academia Mundial, para o intercâmbio cultural entre todos os sábios do mundo, e o Consistório para a solução das questões religiosas.

O Tribunal Internacional superentendia sobre os Tribunais nacionais e locais de forma a todos funcionarem sob os mesmos princípios humanos superiores e de acordo com o direito universal, derivado do direito natural e das leis divinas.

No campo da Administração Pública, “o bem-estar das pessoas deve ser a lei suprema”. Dos cargos de direcção devem ser afastados os sem formação de carácter, especialmente os aduladores e os informadores que são “os tipos mais perniciosos de todos”.

Por tudo isso e ainda por outras directivas que propõe em suas obras, é considerado como precursor da O.N.U. e da UNESCO.

Mas será que a actual O.N.U. e UNESCO estarão enquadradas nessa sua concepção cosmocrata: caminho para um Governo Mundial? É certo que algo de positivo elas têm realizado. Todavia, estarão sendo iguais os critérios da O.N.U. para a solução de casos semelhantes? Onde está, pois, sua justiça e equidade? Não estão bem longe dos arquétipos comenianos?

Também neste campo, sociólogos, economistas, juristas e políticos não beneficiarão com o estudo das ideias comenianas, para seu Bem e de toda a Humanidade?

Só que para se conhecer a sua vasta obra de cerca de duzentos volumes há que editá-las em todos os idiomas, já que ainda não há uma língua universal, se bem que haja uma a tornar-se hegemónica, e especialmente edições na língua portuguesa, na qual apenas há duas obras, a “Didáctica Magna”, edição da Fundação Calouste Gulbenkian, tradução de Joaquim Ferreira Gomes, Prof. da Faculdade de Letras de Coimbra e a “Pampaedia” Educação Universal, tradução do mesmo eminente professor, esta edição da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Esperemos que estas comemorações sirvam para se editar em português algumas das suas obras principais.


Intervenção do autor
Momento em que o autor proferia a sua intervenção.

Na mesa, ao centro, Carlos Serafim, Presidente da Câmara Municipal do Bombarral, tendo a seu lado o jovem Dr. Pavel Filipek, adido cultural da então Embaixada da Checoslováquia, e o Dr. Ivan Remenec, digno Embaixador, e nos extremos, a Dr.ª Gracliková Danuse, Comenióloga, que se deslocou de Praga até Portugal e o Presidente da Junta de Freguesia do Bombarral, João Paulino.

Por fim vejamos a luz que irradia da face teológica de Coménio.

A teologia comeniana é um espelho claro, onde surgem as imagens perfeitas da tolerância, da fé com obras, da plena confiança no plano divino, no seu Governo Cósmico.

Apesar de educado na “Unitas Fratrum”, ramo da reforma preconizada por João Huss (1), sua mente e coração não estavam confinados a credos que desunem, mas ligados por laços de Amor a Deus e à Humanidade. Daí que o vamos encontrar na Polónia, incentivando a reconciliação entre os diversos ramos protestantes e o catolicismo. Vemo-lo ainda procurando o entendimento entre os católicos e os muçulmanos, entre judeus e cristãos e com outras religiões, por meio de colóquios e diversas actividades.

Precursor do ecumenismo religioso, reconhece, por experiência própria, que a grande Unidade de todas as religiões cristãs e não cristãs, não será possível pelas lutas e guerras fratricidas, nem pela hegemonia de uma delas.

Face ao exposto e às suas profundas reflexões e às suas elevadas capacidades espirituais, defende a criação de uma nova religião universal sob a égide de Cristo, onde o Amor reinará como força criadora e regeneradora que tudo vence, transforma e ilumina.


Jesus-Cristo
Jesus-Cristo, o Seu Ideal

Afinal, Coménio, essa estrela de primeira grandeza, de raízes moravas mas mente universal, chamado e bem de “Mentor das Nações”, é um farol para a futura civilização aquariana, ou ele não fosse um dos rosacruzes.

Nesta Hora de grandes mutações, os ideais e as ideias de João Amós Coménio são a solução para os problemas que urge vencer.

Todos os países, especialmente, os Organismos Internacionais e outras Instituições encontrarão nas suas obras a Luz necessária para a transformação do interior de cada ser humano como para um profunda renovação de todos as áreas da vida humana.

Delmar Domingos de Carvalho

 

(1) João Huss (1369-1415), natural da Boémia, foi reitor da Universidade de Praga, defensor da liberdade de culto e da tolerância religiosa, como do perdão e do amor, da dignidade humana, acabou por ser condenado à morte na fogueira, pelos inquisidores.

 

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