Comunicação apresentada por
Delmar Domingos de Carvalho
em representação da
Associação de Pais da Escola Preparatória do Bombarral
(Membro Fundador)
no VII Encontro Nacional
das Associações de Pais
em Lisboa
Colégio de São João de Brito
27-28 de Fevereiro de 1982

O Sistema Escolar, a Família e o Futuro dos Jovens
Responsabilidade dos Educadores e
das suas Organizações no Futuro dos Jovens


Como a verdadeira base do progresso individual e colectivo está na educação, considerada no sentido lato e profundo, abrangendo não só o sistema escolar, como a Família, como ainda as estruturas do meio social, o futuro dos jovens e de toda a humanidade está intimamente relacionado com todas as formas e meios de educação.

Daqui a enorme responsabilidade de todas as pessoas, mas dum modo muito especial dos pais e encarregados de educação, dos educadores, como evidentemente das suas organizações.

Para uma maior análise dessa responsabilidade e das formas que ela se reveste, parece-nos importante que se saiba, com clareza, o que é a educação, como e quando é que ela se deverá realizar e o porquê e para quê desta arte profunda e eterna e bem assim o que são os verdadeiros educadores.

Para essa análise debrucemo-nos sobre a origem etimológica do vocábulo educar. Ela encontra-se no verbo latino educare, que tem sua raiz mais profunda no seu afim, ex-ducere, que originou o nosso eduzir, exprimindo as ideias de fazer sair, de dar luz, de elevar, de libertar e de educar uma criança, note-se uma criança. Com efeito, só quem tenha espírito de menino, isto é, só quem possua mente aberta, sem preconceitos, está pronto para receber Luz e ser libertado e, como disse o Mestre dos mestres, poderá entrar no reino da Verdade e só assim se transformará num libertador ou educador.

Daqui podemos concluir que a educação tem por fins superiores o de contribuir para a libertação de forças positivas e das qualidades potenciais existentes no Interior de cada ser humano, para que ele as possa brotar para Bem de si mesmo e de toda a criação.

Desta arte ela surge-nos como uma necessidade constante que exige aplicação permanente e como o meio mais poderoso de regeneração da humanidade, tornando-a mais Feliz, livre e saudável.

Se analisarmos a história da humanidade e o modus-vivendi actual, onde a criminalidade, a droga, a guerra, o egoísmo, a falsidade, a desonestidade, o orgulho intelectual, a intoxicação mental e do meio biológico campeiam, é fácil de extrair a ilação de que muito mal tem andado a educação. O ser humano, em vez de se encontrar cada vez mais livre e responsável, está escravizado e enfermo e com ele os reinos inferiores. Nestes últimos basta observarmos as consequências do uso e abuso de determinados produtos químicos, etc., para verificarmos que a educação e instrução não têm seguido, verdadeiramente, o caminho da Luz e do real progresso.

Por isso, é imperioso analisar todas as estruturas actuais para verificar quais as que não cumprem a nobre missão de libertar e adaptá-las a esse fim e ao mesmo tempo criar outras que satisfaçam os anseios superiores do ser humano, custem o que custarem, pois não existe aplicação de capitais que produza maior e verdadeira riqueza do que o que for realizado no domínio da educação, pelo que não concordamos com cortes nos Orçamentos Gerais do Estado, no Ministério da Educação e no da Cultura, antes pelo contrário deverão ser devidamente aumentados.

Todo o sistema de ensino deverá ter, como base, o saber experimentado e não o conhecimento tipo papagaio, daí que urge criar novas estruturas e melhorar as existentes no sentido de ser a experiência o melhor meio de instrução.

Por outro lado, temos evoluído através de estruturas que procuram desenvolver a inteligência sem simbiose perfeita com a libertação do que há Superior no ser humano, sem ser acompanhada com uma sólida e libertadora formação de carácter, que nada tem a ver com a moral escravizante, o que tem sido uma das grandes causas do fomento do espírito de exploração, de egoísmo, da criminalidade, do orgulho intelectual, de preconceitos, etc.

Daí a necessidade de criar condições que possam contribuir eficazmente para uma boa formação de carácter sem o que não haverá nem educadores nem educação.

Uma dessas condições será a criação da Faculdade de Ciências de Educação, onde seriam ensinadas as seguintes disciplinas: Psicologia, Pedagogia, Grafologia, Artes, Meios-Audiovisuais e Higiene. Desta Academia sairiam os professores com a missão de ministrar esta disciplina a criar em todos os graus de ensino com o nome de, por exemplo: Formação de Carácter.

No ensino pré-primário e no ensino primário, que são as bases da educação e estas são os grandes fundamentos para a formação integral do ser humano, esta disciplina seria dada pelos próprios educadores, com conhecimentos das matérias acima mencionadas que deveriam ser leccionadas nas suas Escolas Superiores de Educação.

Nos restantes anos escolares seria ministrada por professores de educação, oriundos da referida Escola.

A reprovação nesta disciplina, em três anos consecutivos, poderia dar lugar à reprovação do aluno ou aluna e à obrigação de frequentar Escolas de Regeneração a criar, onde leccionarão médicos-pedagogos, professores de educação, professores de música e de Belas-Artes e Mestres de Ofícios, entre outros. Logo que o aluno recuperasse, ingressaria novamente no ensino geral.

Tal disciplina teria como função não só avaliar o carácter de cada educando, como ainda, e essencialmente, orientar os pensamentos, desejos e actos dos alunos, incentivando o espírito de cooperação, a amizade sincera, o altruísmo, o espírito construtivo, o Amor pela Verdade e pelo trabalho, ajudando à sublimação da energia sexual, etc.

Todo este vasto campo de acção será norteado pelo espírito da verdadeira justiça amorosa. Jamais deve contribuir para recalcar ou diminuir ou marginalizar todo o que não avançasse nestes campos, difíceis de orientação e até de avaliação, mas antes deve amparar e proteger.

Que mais belo haverá, na sublime arte de educar, senão a regeneração dum delinquente, dum mau carácter? Todos devem sentir satisfação e todas as pessoas e estruturas têm obrigações de prestar apoio e de incentivar e jamais desprezar ou não ter confiança nestes educandos, até porque não existe nenhum ser humano sem defeitos para transmutar.

O que tem faltado em muitas estruturas e pessoas é esse Amor Superior que é capaz, e só ele, de resolver todos os problemas da educação. Esse Amor regenera, protege, cura, perdoa, faz verdadeiros milagres como aquele que tivemos o ensejo de verificar na Televisão, no filme sob o título: “Milagre de Amor”, no qual se constata que graças a esse Amor dos Pais pelo seu filho foi possível uma recuperação total a qual não tinha sido conseguida através dos meios e conhecimentos científicos. É que estes, desde que não sejam acompanhados pelo Amor real, são como o fogo-de-artifício, deslumbra, mas logo desaparece, deixando a ilusão e maiores trevas. Só com Amor, a ciência se transforma em sabedoria e ilumina.

Para que esse Amor exista, torna-se necessário criar uma mentalidade sã sobre o valor de cada profissão, não menosprezando as consideradas inferiores, pois varrer as ruas, cavar, etc., não é sinónimo de tarefa pequena, como ser Advogado, também não é igual a ser trabalho superior, tudo dependendo em grande parte da forma com que é executado e do fim a que se destina o que é realizado; para que Ele floresça torna-se imperioso criar uma mentalidade modesta, que não é sinónimo de baixeza, em todos os educandos, especialmente nos que possuem ou irão possuir cursos superiores para que educadores e educandos convivam com os de nível social inferior duma forma sã, fraterna e sincera, ajudando-os a resolver seus problemas. Por isso, é tempo de desaparecer a ideia egoísta de ir estudar para trabalhar menos, ou fazer tarefa mais leve ou enriquecer, sem respeito pelo intercâmbio entre trabalho e salário.

Hoje, talvez, mais do que nunca, necessitamos de verdadeiros Mestres, de verdadeiros educadores, tanto uns como outros sabem comunicar o que possuem, são verdadeiros sábios, libertam ou ajudam a libertar os educandos, porque amam, com profundo e puro amor.

Foi seguindo a Filosofia do Amor que Gandhi libertou o povo a que pertencia, dando assim um nobre exemplo a todos os movimentos verdadeiramente libertadores, infelizmente muito esquecido.

Fala-se muito em falta de autoridade, defendendo-se por vezes a necessidade de uso de força, da palmatória. Pessoalmente penso que isto é um erro pois que a autêntica autoridade não vem de fora, Ela vem de dentro e essa possui o verdadeiro Mestre, o verdadeiro educador, como existe nas estruturas que assentem numa verdadeira base edutora. É essa que quase não existe na época actual, onde o materialismo, o falso espiritualismo, o egoísmo e o ódio dominam, originando todo o quadro visível de corrupção, de oportunismo, de hipocrisia, de luxúria, de irresponsabilidade, de estruturas mais ou menos escravizantes, infelizmente algumas até ditatoriais, esmagando a liberdade das populações. A verdadeira autoridade não pertence, tal como a educação, ao domínio do ter, mas sim do ser.

O verdadeiro educador deverá essencialmente prevenir, ajudando o educando a encontrar o verdadeiro sentido da independência e da liberdade, na Unidade, desde a Família, à Pátria, a todos os povos e porque não mesmo na Unidade Cósmica, do Universo. Só há uma Vida, a Divina, tudo une, numa base de infinito Amor e Luz. Por isso, se alguém tem de aplicar o castigo, deverá fazê-lo com Amor e nunca sob ira, não esquecendo que aquele gera o medo e este a mentira e que a inibição gera tensão, neuroses e frustrações. O verdadeiro educador ensinará as consequências dos erros que se cometem, sob uma óptica cósmica da Lei da Causa e Efeito, que trabalha para nosso bem, e que foi sintetizada pelo Mestre de todos os docentes, nas Suas célebres palavras: “o que semeares, isso mesmo colherás”.

Como disse um filósofo americano: “Semeias um acto, colherás um hábito, semeias um hábito, colherás um carácter, semeias um carácter, colherás um destino”, e este está sendo muito severo... pelo que é tempo de deixarmos de semear tempestades, antes que venha algum furacão, é tempo de semear flores, fazendo nascer a Primavera.

A par de todas estas salutares transformações é urgente também incentivar a educação artística, tarefa que felizmente se está já verificando tal como a educação física as quais se devem tornar mais acessíveis a todas as pessoas, especialmente no campo da arte, evitando exageros do abstracto, que, a meu ver, tem contribuído para afastar muitas pessoas das actuais formas de expressão artística que têm o seu valor.

No domínio escolar creio que terá chegado a hora da arte, da música e da ginástica serem consideradas como disciplinas de primeira grandeza. Para tal há que colocar professores mais bem qualificados a leccionar estas matérias e reciclar os menos qualificados para que cesse a mão–de-obra menos cara nestas disciplinas.

Tanto a arte, como a música, como a ginástica, não competitiva, são grandes disciplinas libertadoras do ser humano que as estruturas mais ou menos materialistas têm escravizado no ensino, nos últimos séculos principalmente, pois em tempos remotos, foram consideradas de enorme valor, tal como a Matemática. Basta olharmos para as actuais grandes cidades onde, na maior parte das vezes, o sentimento do Belo, da Harmonia, do Amor pela Vida, como a proporção áurea foram menosprezados. Derrubam-se árvores e jardins, com as suas lindas flores, contribuindo para se deixar de ouvir as belas melodias das aves, matamo-nos interiormente.

Museus, galerias de arte, salas de concerto, coretos, pavilhões gimnodesportivos, jardins, parques, são necessidades para a educação permanente, para apoio extra-escolar, para a libertação do ser humano.

Todas estas infra-estruturas e outras devem ser preservadas e criadas de modo a que as pessoas de todas as idades possam ocupar, duma forma salutar e criadora, os tempos não utilizados nos deveres profissionais, escolares, familiares, e outros.

Creio que cada vez mais há consciência que os meios de comunicação podem ser factores de libertação, como ao invés, podem ser usados, como meios poderosos de escravidão e de intoxicação. É grande a responsabilidade de todos estes meios, especialmente dos seus administradores, directores e dos seus profissionais no futuro dos jovens. Neste domínio, devem informar e incentivar o que há de Belo, de Bem, de Positivo.

Aos educadores e às suas Associações incumbe a responsabilidade de tudo fazerem de modo a que os programas divulguem os valores universais, apresentem criações que contribuam para a formação integral de cada pessoa, especialmente os jovens, desde a publicidade aos filmes e telejornais. Compete ainda aos educadores o esclarecimento dos educandos sobre os modos ardilosos da comunicação maquiavélica, da enganadora publicidade.

Voltando ainda ao campo da educação física, como meio de libertação, não de competição, convirá lembrar as experiências de Vanves, colocando em prática as suas conclusões, aumentando o seu número de horas e melhorando as condições de sua prática.

Como se sabe, essas experiências confirmam que um maior número de aulas de ginástica era muito benéfico para os alunos que aumentaram de peso, tornaram-se mais atentos, passaram a gostar mais da Escola, mais diligentes, mais confiantes e conseguiram uma melhor sublimação da energia sexual.

Outro factor muito importante para a criação de melhores estruturas é a criação nas Escolas e fora delas de meios que permitam uma sábia orientação profissional, em que a última palavra caiba à pessoa, de modo a que cada qual esteja na profissão onde tenha maiores capacidades e onde se sinta com mais entusiasmo.

Por outro lado, como o trabalho é um dos meios mais eficazes para a realização e libertação de cada qual, há que vencer com urgência, os sérios problemas do desemprego, sem o que será muito difícil, senão mesmo impossível um melhor futuro para os jovens. Neste campo, como há muito que fazer e construir para bem das mulheres e dos homens de amanhã, este assunto complexo, exige soluções eficazes, uma nova mentalidade, uma mais perfeita concepção da Vida, a criação de estruturas inovadoras, em que a dignidade humana seja devidamente respeitada. (1)

Uma eficaz descentralização é uma condição importante para uma melhor educação. Por isso, há que fornecer às autarquias locais os meios para uma maior intervenção, dando maior poder de decisão e de independência às Escolas e um maior âmbito de acção às Associações de Pais e Encarregados de Educação.

Tal como disse o grande poeta alemão Goethe só teremos crianças educadas, quando tivermos pais educados, ao que acrescentarei e professores educados. Note-se que muitos são também pais. É que o exemplo dos pais, de todos os educadores é o melhor meio de educar, de eduzir. Um professor, um pai, um médico poderá aconselhar um filho, um aluno ou um doente a deixar de fumar, se ele não conseguir vencer o vício do tabaco? É evidente que não.

Neste campo é urgente a educação permanente, a criação de Escolas para Pais, onde se ensinasse, desde a preparação para o casamento, incluindo a análise da harmonia psico-fisiológica entre os candidatos, à pedagogia, à arte de envelhecer, etc., missão essa que caberia aos já mencionados Professores de Educação e a outros verdadeiros educadores.

Mas nem só os pais necessitam de melhoria, também os professores pelo que há que melhorar a sua preparação e efectuar uma escolha criteriosa dos candidatos que deveriam ser dos melhores da sociedade, verdadeiros mestres e não o que, com pesar verificamos em alguns, necessitando não só de saber como de grande regeneração. (2)

Alguns destes assuntos poderão parecer neste momento algo de utopia. Creio porém que só com ela se avança no tempo e no Espaço.

Nós portugueses soubemos criar condições para dar novos mundos ao mundo, contribuindo assim para o libertar, saibamos nós, agora, Pais, Encarregados de Educação, Professores, etc., dar novos e melhores rumos à educação dos jovens de Portugal.

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1) Comparem-se as nossas mensagens proferidas em Fevereiro de 1982, com a actualidade. Em alguns aspectos houve progresso; um positivo a realçar; noutros, como, neste campo, estávamos sentindo que algo de muito penoso estava à nossa frente e que quanto mais cedo soubéssemos prevenir, melhor se venceriam os graves problemas que já despontavam.

2) Note-se que temos muitos professores de elevado nível cultural, científico e ético

 

Resumo:

O Sistema Escolar, a Família e o Futuro dos Jovens

Responsabilidade dos Educadores e das suas Organizações no Futuro dos Jovens

Delmar Domingos de Carvalho

Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Preparatória de Bombarral

 

Atendendo que a educação é libertação, cada vez é mais urgente a criação de uma mentalidade aberta ao progresso, livre, mas responsável.

O ensino necessita de uma nova filosofia, da introdução de uma nova disciplina com o nome de FORMAÇÃO DE CARÁCTER, que contribua para o aperfeiçoamento integral da pessoa humana, como de um maior reconhecimento do valor das Artes, desde a Música à Escultura, como da ginástica, criar melhores condições extra-escolares, melhorar os meios de comunicação, criar Escolas para Pais e formar melhores professores e tudo isso sob a base sólida do Altruísmo, sem o que nada de verdadeiramente positivo será realizado.

 

Nota:

Entre as conclusões deste Encontro realçamos a criação da disciplina:

EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA.

No debate que houve, uma mãe e professora afirmou que o nosso trabalho seria para concretização num futuro mais distante.

Não fazemos comentários, foi uma verificação do seu valor e da realidade sociocultural do país e do mundo.

Só que o progresso não é feito com novas e arrojadas ideias e ideais?

Como se sabe, viria a ser criada a disciplina DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL, pelo Decreto-Lei nº 286/89, de 29 de Agosto. Só que, na realidade, foi pouco e mal introduzida.

Mais tarde, pela reforma do D.L. 6/2001, surge a FORMAÇÂO CÍVICA.

Em nossa opinião, vale mais existir algo do que nada. Só que continuamos a defender uma real disciplina, com âmbito muito mais profundo e renovador.

Nesse caso, o Canadá tem uma disciplina, FORMAÇÃO PESSOAL E SOCIAL que abrange desde a educação sexual até à ecologia. Este sistema é aquele que mais se aproxima do que apresentámos.

Ajudaria a resolver todos os problemas, incluindo sobre a tão falada: educação sexual.

Pensamos que é tempo.

Ou há alguma antevisão dos problemas, ou há uma noção profunda da realidade e da falta ainda de conhecermo-nos a nós mesmos, e aplicarmos soluções inovadoras, ou, doutro modo, eles irão aumentar.


3 de Maio de 2009

Delmar Domingos de Carvalho

 

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