À descoberta de Mozart

“Ave, Verum Corpus”, K 618

 

No ano 2005, 250 anos de Mozart, por toda a parte, comemorou-se a vida e obra deste compositor algo enigmático, de quem muito se tem escrito e falado, na maior parte das vezes, repetindo os mesmos pontos, com pequenas diferenças, A copia B; C copia D e assim por diante.

Não vamos falar sobre este campo, onde muito está por descobrir, mas acerca de uma das suas maravilhosas obras: AVE VERUM CORPUS, K 618.

As composições mozartianas transmitem os sons do Coro Universal. Entre elas existem algumas obras-primas, intemporais; está neste domínio o moteto citado. Pela sua simplicidade, pela sua concepção geométrica e matemática, encerra pérolas espirituais que nos elevam e libertam.

Assinada a 17 de Junho de 1791, quando as Forças da Natureza estão mais vigorosas, paradoxalmente acabaria por ser criada no ano em que Mozart viria a nascer para o “santo etéreo monte”, em pleno Inverno, onde tudo está em repouso, no ciclo espiralado das Estações do ano; tal como outras obras geniais e inovadoras, desde o Adágio e Rondó para Harmónica de vidro, flauta, oboé, viola e violoncelo, K 617, em que conjuntamente com o médico Mesmer viriam a unir esforços para criar algo musical com capacidade para ajudar os enfermos, uma simbiose entre a arte e a ciência; as óperas Flauta Mágica, K 620 e A Clemência de Tito, K 621 além do Concerto para clarinete em Lá, K 622 e O Requiem, K 626, as quais estão cheias de Beleza, de Alegria, de Esperança, de Melodia; no caso da Flauta Mágica, ópera onde existem muitas notas e símbolos de humanismo cristão neoplatónico, Mozart eleva-nos para a criação da Fraternidade Universal e tudo isto consciente que, embora tivesse muito ainda para oferecer, estava próxima a “irmã morte”.

Nessa data, sua esposa estava doente e grávida do 6º filho, em tratamento na cidade termal de Baden, 26 km a Sudoeste de Viena, cidade, onde, então, trabalhava arduamente, sentindo a sua falta, bem patente nas cartas que lhe escreveu, em que a angústia, a ansiedade o dominavam, pois o tempo estava breve, Mozart compôs esta belíssima peça musical, em plena concepção dessa obra maravilhosa, a Flauta Mágica.

É neste quadro, mui sucintamente retratado, que ele oferece esta composição imortal à Humanidade e para glória de Cristo e de Deus. Inspirando-se em J.S. Bach e no neoplatonismo cristão concebe-a para ser tocada e cantada na Festa “Corpus Christi”, oferecendo-a a seu amigo Anton Stoll, director do Coro da Paróquia de Baden, onde estava sua esposa. Trata-se de uma obra orquestrada com simplicidade, destinada apenas para cordas, órgão e coro, com 46 compassos, ou seja 46=10=1, Unidade da Vida.

Partindo do Hino Eucarístico, gregoriano, tradicional, que remonta ao século XIV, oração que nos conduz à meditação sobre a paixão de Cristo e sobre a redenção da Humanidade e da vitória da Vida sobre a morte, Mozart, comendo o pão amargo do sofrimento, vivendo dias, meses, anos de angústia, naquele momento mais intenso, acaba, através da sua música, de conhecer as Belezas Celestiais, oferecendo-as numa música simples mas grandiosa, plena de Beleza e de profundidade que nos eleva à Vida Una e Única, acima da morte, em sintonia com a Vontade do Pai. Sua Música já não é de Mozart, nem de um ser humano...

Face ao exposto, Mozart repete, na sua partitura, e na letra bem conhecida, a palavra de saudação AVE, anagrama de EVA, não só de acordo com a sua concepção numerológica, dando assim, 46 compassos, 46=10, duas vezes 5, o número mágico, expressão da Vida que está em sintonia com a elevada missão de Cristo, Caminho para a Unidade Cósmica, como para realçar a gratidão ao Único Salvador, a confiança no Seu Cargo e ainda o seu respeito e homenagem, dado que esta palavra latina expressa várias saudações desde BOM DIA a DEUS TE SALVE; que, no caso, tem sido traduzido, apenas, por SALVE.

Mozart ao sentir a profundidade da Paixão como um Hino à Vitória da Luz sobre as Trevas, sobre a morte, encarou essa passagem como algo que conduz a uma Vida Superior na nossa verdadeira Pátria.

 

Glossário

K 618. Número respeitante à ordem do Catálogo das obras de Mozart concebido por Kochel, edição de 1964.

Moteto. Forma de composição musical sobre um texto religioso.

Harmónica de vidro. Instrumento criado por Mesmer e Mozart sob uma base de trabalho de Franklin. Foi usado por outros compositores, caiu em desuso, mas de novo voltou a ser usado. Neste momento, em Viena, há um Duo com o nome WIENER GLASSHARMONIKA DUO.

 

Nota: Este artigo foi publicado na Revista ROSACRUZ da Fraternidade Rosacruz de Portugal. Uma visita valiosa: www.rosacruz.pt

 

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